“Ficamos 14 meses empurrando essa decisão. Mas o Luiz, sempre otimista, tinha esperança de que o mercado melhoraria, mês após mês. Essa melhora não veio. A gente foi tentando e esgotando todas as possibilidades”, diz Almir Santos, diretor de negócios e recursos humanos.
Cinco dias depois das demissões, Scussolino, então com 66 anos, apareceu morto, enforcado, em um dos galpões da fábrica. Para executivos da Luizzi, o empresário não resistiu à depressão em que afundou após os cortes.
“No dia da demissão, ele passou mal e foi hospitalizado com arritmia. Um dia antes de morrer, falei com ele ao telefone e ele disse que não conseguia sair da cama”, diz Carlos Eduardo Marques, diretor de governança.
Os dados mais recentes sobre suicídios no Brasil são de 2014, antes do agravamento da crise. Estudos internacionais, como um feito pela Universidade de Zurique com dados de 63 países de 2000 a 2011, apontaram forte relação entre suicídios e desemprego.
O diretor dos ambulatórios do Instituto de Psiquiatria da USP, Rodrigo Leite, diz que os suicídios são um fenômeno diferente de outros transtornos mentais, porque têm influência do ambiente.
Segundo ele, o impacto do desemprego é grande porque, além do salário, há solidão, isolamento, perda de apoio social, crises familiares e sensação de impotência.
GOTA D’ÁGUA
Esse conjunto de fatores desencadeia tendências autodestrutivas e o abuso de álcool e drogas, agravando transtornos como ansiedade e depressão e agindo ainda como “desinibidores”, ou seja, reduzindo o medo da morte. “É a gota d’água”, diz Leite.
O risco é considerado maior no caso de homens na faixa de 45 a 50 anos de idade, porque o potencial de perda extrapola a economia.
Eles têm responsabilidade familiar e status social ameaçados. “A sensação de fracasso é maior. É todo um projeto de vida ruindo”, afirma Leite. Homens são também mais resistentes a procurar ajuda médica ou psicológica. “Em saúde mental, o homem é o sexo frágil.”